11.3.11

já não existe

que pena que não queiras voltar a construir; pena que eu me tenha cansado de os fazer.
nós construímos começou por ser apenas um monte de areia, como todos começam. mas aos poucos, tu e eu, o nós daquela altura, foi-lhe dando forma. construímos um belo palácio, cheio de cantos e recantos, salas estonteantes que enchemos, sobretudo, de memórias: gestos, aromas, palavras soltas. vivémos lá durante um tempo, que na altura me pareceu insignificante. vejo que devia ter aproveitado mais, porque agora uma onda de rancor, mágoa e ciúmes debruçou-se sobre o nosso bocadinho de arte, destruindo-o por completo. enquanto eu continuo impávida, estupefacta a olhar para o nada a que tudo se reduziu, tu, pelo contrário, com esse espirito empreendedor, já começaste a construir um novo. só que desta vez não quiseste a ajudar-te. já quase que acabaram a construção. é mais rápido com ela, não é? claro que é. ela nem hesitou quando, delicadamente lhe pediste ajuda. eu demorei imenso tempo a aceitar tal sublime convite. mas tu não desististe, e acabámos contruindo aquilo que foi a minha felicidade durante aquele tempo. mas no meio de tanta pressa em terminar, perderam a magia da construção. perderam os sorrisos de quando mãos se encontram por acidente, a mágoa de quando um destrói involuntariamente algum bocado e o conforto de juntos lhe voltarem a dar forma. adoravas essa parte, eu sei. agora apressa-la, o tempo está a contar. sabes muito bem que nao conseguirão fortificar tão má construção. a areia secou desde a minha passagem. recusa-se a servir-vos neste momento. ela ainda se lembra de mim. não há-de tardar muito até que a maré encha de novo e destrua esse 'castelo'. Vai encher e vai-me trazer de volta para junto de ti e dos teus destroços. 


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